Quando você sentir-se só, tão só que os móveis da casa também compartilhem da sua aflição, qual será seu pensamento. Um homem. Uma mulher. Amiga ou irmã. Uma esperança. Filme. Canção. Gostaria eu de lá estar e lá permanecer, para que a solidão sendo duas, não nos faça mal, nem a mim nem a você. É que acontece aquele instante quando mesmo as mulheres fortes, e sendo você uma mulher forte, mesmo você vê-se perdida. Às vezes o momento é de mistério e medo. Fazer parte de qualquer coisa sua quando o instante for de mistério e medo e assim ter um pouco de verdade em minhas preces, menos distância nessa indiferença. Posso ouvir o ranger dos móveis e não importa que seja dia, que seja sol e verão, o silêncio dos móveis preenchem um silêncio de angústia. Façamos desse silêncio um sussurro de que é possível é possível é possível, preciso ouvir no seu tom, é possível é possível é possível. A forma derradeira desse encontro é mesmo uma palavra sem nome, palavra sem forma. Em dias assim, quando você sentir-se só, eu não quero ser seu pensamento. Caso fosse afeito a clichês somente. Uma vez tive essa namorada e a gente saia para bares e lugares e ela era a mulher mais distante que distanciei e eu me culpava a mim pelo distanciar dela como antes você havia se culpado pelo meu. É que cabe a cada um seu próprio alheamento, mas como deve ter doído em você. Como tanto quanto imenso. Quando o vento toca e Amarante canta, não te dizer o que eu quero já é pensar em dizer, é você cantando pra mim mais uma vez no banco da universidade, os dois com vinte anos, sem curso na vida além do outro. A gente devia se perdoar, mas é tanta mágoa tanta mágoa tanta mágoa e a vida vai passando e a gente passa a duvidar do que viveu e a dúvida que seu pensamento nada tem de mim já pode ser vista na superfície desses móveis rangendo nossa ausência.
Pierrô da Caverna
Um homem com uma dor é muito mais elegante
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Venha ver minhas fotos
Três álbuns grossos em cima da mesa. As únicas fotos não publicadas da minha carreira e agora eles querem montar uma exposição. Estão sempre querendo alguma coisa de mim. Quando não é tempo querem atenção quando não atenção são mais e mais fotos quando não são as fotos eu não sei mais o que eles podem querer de mim. Mas isso não os proíbem de querer. Eu também quis, quis dizer não quando percebi a qualidade de fábrica que me tornara. Sempre desejei viver disso, é certo. Mas o preço, ah! o preço. O preço é sempre caro demais, não vale à pena, independente do tamanho da alma, poeta, não vale à pena. É o que todos descobrem no fim. Você vai questionar minhas generalizações, sem dúvida que você vai questionar. Quer saber o que eu acho de você.
Esses três álbuns grossos de imagens que eu já tinha esquecido. Quem sabe o que quis com elas. Eu não, eu não sei. Apenas as tirei há muito, muito tempo, quando talvez toda essa merda fizesse mais sentido pra mim, e por que nunca as publiquei, nunca uma exposição, nunca a curiosidade de visitar mais uma vez esses momentos. Gostaria de lembrar. Mas a memória também é um preço que se paga. Com a velhice, quero dizer. Envelhecer é um mau negócio, quando chegar o momento, escolha não fazê-lo. Ser velho, quero dizer.
Duas mulheres descendo uma escadaria, porque eu tirei essa foto, eu conheci essas mulheres, fomos amantes, fomos passageiros do mesmo trem, vejo que é uma estação de trem, onde essa estação. Talvez o andar delas tenha me chamado atenção, só um tolo pra querer fotografar um andar. E mesmo assim, pode ter sido esse o motivo da foto, quem não está suscetível a excentricidades. A de vestido branco poderia ser minha amante, tenho sonhado com uma mulher dessas assim de vestido branco, no sonho ela aparece e, mas você não precisa ouvir meus sonhos se eles não tem importância nem mesmo para mim.
Três homens conversam na rua enquanto um outro passa de bicicleta, no fundo uma mesa, um dos homens com a mão direita no queixo enquanto fala, parece sério assim de perfil na escuridão, sobre o que conversava esse homem de tão importante para o deixar meio aflito com a mão direito no queixo. O certo é que a morte já o tenha visitado e aquele assunto em particular fixou sua fugacidade apenas nessa foto. E o que tinha eu a ver com a vida desses homens e seus problemas. Já me sinto tão distante. Talvez seja por isso que não fotografo mais, dinheiro e reconhecimento já tenho, há muito que o significado da arte se perdera de mim. E essas fotografias distantes no tempo e no entendimento são o que existe de inédito para os pedintes, é o que eles são, pedintes. Exposição de merda.
Acaba de sair dessa sala uma dessas pedintes, perguntara, já escolheu as fotografias para a exposição, Sr. Kniknik. Como eu não respondera, era desapareceu por aquela porta. Você vai perdendo a paciência com o excesso nas pessoas, excesso de palavras, de gestos, de cordialidades. A gente é bixo mesmo. E o excesso é simplesmente ridículo. Por isso sorri quando notei sua ausência, mas eu não ria dela, ria unicamente de mim mesmo.
Acendo um charuto, você gosta de charutos, eu gosto do calor, do fogo. Eu não deveria mais fumar, mas de que vale esse resquício de vida se a gente não faz uma ou outra coisa que realmente quer, se a gente não corresponde a um desejo. Eles fingem não ver, mas deixam meus charutos aqui no escritório, a caixa ao lado do zippo. O zippo. As fotos. Exposição de merda.
Esses três álbuns grossos de imagens que eu já tinha esquecido. Quem sabe o que quis com elas. Eu não, eu não sei. Apenas as tirei há muito, muito tempo, quando talvez toda essa merda fizesse mais sentido pra mim, e por que nunca as publiquei, nunca uma exposição, nunca a curiosidade de visitar mais uma vez esses momentos. Gostaria de lembrar. Mas a memória também é um preço que se paga. Com a velhice, quero dizer. Envelhecer é um mau negócio, quando chegar o momento, escolha não fazê-lo. Ser velho, quero dizer.
Duas mulheres descendo uma escadaria, porque eu tirei essa foto, eu conheci essas mulheres, fomos amantes, fomos passageiros do mesmo trem, vejo que é uma estação de trem, onde essa estação. Talvez o andar delas tenha me chamado atenção, só um tolo pra querer fotografar um andar. E mesmo assim, pode ter sido esse o motivo da foto, quem não está suscetível a excentricidades. A de vestido branco poderia ser minha amante, tenho sonhado com uma mulher dessas assim de vestido branco, no sonho ela aparece e, mas você não precisa ouvir meus sonhos se eles não tem importância nem mesmo para mim.
Três homens conversam na rua enquanto um outro passa de bicicleta, no fundo uma mesa, um dos homens com a mão direita no queixo enquanto fala, parece sério assim de perfil na escuridão, sobre o que conversava esse homem de tão importante para o deixar meio aflito com a mão direito no queixo. O certo é que a morte já o tenha visitado e aquele assunto em particular fixou sua fugacidade apenas nessa foto. E o que tinha eu a ver com a vida desses homens e seus problemas. Já me sinto tão distante. Talvez seja por isso que não fotografo mais, dinheiro e reconhecimento já tenho, há muito que o significado da arte se perdera de mim. E essas fotografias distantes no tempo e no entendimento são o que existe de inédito para os pedintes, é o que eles são, pedintes. Exposição de merda.
Acaba de sair dessa sala uma dessas pedintes, perguntara, já escolheu as fotografias para a exposição, Sr. Kniknik. Como eu não respondera, era desapareceu por aquela porta. Você vai perdendo a paciência com o excesso nas pessoas, excesso de palavras, de gestos, de cordialidades. A gente é bixo mesmo. E o excesso é simplesmente ridículo. Por isso sorri quando notei sua ausência, mas eu não ria dela, ria unicamente de mim mesmo.
Acendo um charuto, você gosta de charutos, eu gosto do calor, do fogo. Eu não deveria mais fumar, mas de que vale esse resquício de vida se a gente não faz uma ou outra coisa que realmente quer, se a gente não corresponde a um desejo. Eles fingem não ver, mas deixam meus charutos aqui no escritório, a caixa ao lado do zippo. O zippo. As fotos. Exposição de merda.
No Box
Às vezes você chega aquecendo meu corpo como uma dessas manhãs de janeiro. Deixo você entrar. Me demoro no seu permanecer. E você andando por essa casa, folheando os livros que comprei depois, observando os DVDs que assisti depois, comentando sobre os tênis que andei depois, cheirando os perfumes que comi depois. Depois. Eu não sei o que pensar é uma frase tão batida. É que ontem, ao entrar no banheiro, me deparei com uma borboleta no box. Estranho que isso nunca tenha acontecido; há tantos anos que aqui e borboleta jamais. Jamais além de você. Estranho que isso tenha acontecido justamente ontem. Borboleta grande e negra, descansando na superfície do acrílico. Não entendo como ela conseguiu entrar no banheiro, as frestas tão estreitas, a porta sempre fechada. Imaginei que a borboleta fosse você a me espionar. Foi com pudor que me despi, e me senti ridículo quando desse pudor, como se você nunca tivesse me visto nu. Uma borboleta com os desenhos prateados nas asas, se bem que ultimamente o dourado combine mais com você. Talvez seja isso, talvez eu não tenha aprendido a amar seu dourado, quero você prata, prata e cacheada. Tomei um susto, o banho era pra eu sair e me esquecer das vezes que você chegou aquecendo meu corpo como uma dessas manhãs de janeiro. E durante todo o banho esperei um mover qualquer da borboleta. Teria sido bom; nunca a ausência, a separação, a dúvida, o terceiro. E agente nem sentiria falta do que não viveu. Mentira. Teria sido bom até uma decepção qualquer, teria sido bom, mas não teria sido vida. E a gente se ressente com quem compartilhou tão gentilmente da nossa limitação. Dois meses atrás, quando nos vimos, havia qualquer coisa de necrofilia naquele encontro. Amamos dois corpos que morreram, morreram, morreram, é chegada a hora de assumir. Isso sou eu racionalizando. Racionalizar é não aceitar a realidade, racionalizar é não pertencer. Você é feliz, era como se a borboleta perguntasse enquanto eu me envolvia no sabonete líquido. Eu não sei o que é felicidade, a gente precisa de uma comparação qualquer pra chegar a uma resposta decente. Eu nunca fora feliz, sempre a insatisfação. Insatisfeito antes de nos conhecermos, insatisfeito com as outras namoradinhas, insatisfeito contigo, insatisfeito quando não estava contigo, preso no meu universo, insatisfeito quando nos perdemos e eu não tinha mais você para culpar minha insatisfação. Foi algo que descobri recentemente, eu te usava pra culpar minha insatisfação. Pode me chamar de egoísta filho da puta, sei da carne que me fez. E não tenho a mínima pretensão de céu. Quero mesmo morar onde haja fogo e onde queime de insatisfação, pois já não sei mais viver sem. Tudo disse para a borboleta durante o banho, passou pela minha cabeça feri-la. Quis magoá-la profundamente, como a gente faz sofrer uma borboleta desenhada de prateado nas asas. Água, toalha, sei lá. Isqueiro. Acontece que essa morte seria ainda sim lembrança, uma lembrança morta não é menos ausência, não é menos lembrança. A gente se ilude com isso de preto no branco. A beleza não exige esse maniqueísmo de compreensão. Enquanto me vestia reli sua última mensagem no cel. E a borboleta no meu banheiro. Nada fiz. Deixei-a morando no box. Na esperança que, quando voltasse, ela não estivesse mais lá, ou que eu chegasse muito bêbado para percebê-la.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Castelo Pub
A gente se conheceu enquanto Simona Talma cantava Cazuza. E você roubando as minhas cervejas.
E você fugindo da fumaça.
No fim da festa você comentou com um amigo em comum, acho que ele tava dando em cima de mim.
Como o isqueiro não funcionava, procurei alguém pra acender meu último cigarro. Acabei trombando com Hermano. Ele disse mais uma vez, cresci ouvindo o Celeuma, você com as calças rasgadas e o cabelo grande em cima do palco, quanto tempo faz.
Hermano tava bêbado.
Acendi o cigarro com a namorada dele.
E por mais que eu quisesse duvidar do gosto do cara, seria impossível duvidar de alguém que me mostrou o Bookends do Simon & Garfunkel.
Vamos fazer um som qualquer dia desses, Hermano disse, e pegou meu telefone.
Simona Talma cantava Cássia Eller e você no meu ouvido, se eu ficar bêbada a culpa é sua.
Victor sentado num canto pensando na namorada, Rennan observando o guitarrista, Rodrigo tentando ficar com Larissa, Ariadne procurando algo na bolsa, Rodolfo bêbado falando do rock in rio, eu vou eu vou.
Olhei pra Larisa e pro cara do lado dela, comentei sobre as letras do alfabeto, pela lei são vinte e seis, portanto não se limite, qual palavra a gente pode formar com três consoantes. Larissa entendeu. O cara não.
Eu queria que ela ficasse com Rodrigo.
Eu usava a cerveja como desculpa pra falar o que eu queria.
No fim da festa você comentou com um amigo em comum, acho que ele tava dando em cima de mim. Eu não estava. Não é que você não faça meu tipo, é que não sei mais quem é meu tipo.
Você é delicada e inteligente, percebi pelos óculos, mas eu não estava dando em cima; era justamente o que você queria.
E eu gosto do abrupto.
E você fugindo da fumaça.
No fim da festa você comentou com um amigo em comum, acho que ele tava dando em cima de mim.
Como o isqueiro não funcionava, procurei alguém pra acender meu último cigarro. Acabei trombando com Hermano. Ele disse mais uma vez, cresci ouvindo o Celeuma, você com as calças rasgadas e o cabelo grande em cima do palco, quanto tempo faz.
Hermano tava bêbado.
Acendi o cigarro com a namorada dele.
E por mais que eu quisesse duvidar do gosto do cara, seria impossível duvidar de alguém que me mostrou o Bookends do Simon & Garfunkel.
Vamos fazer um som qualquer dia desses, Hermano disse, e pegou meu telefone.
Simona Talma cantava Cássia Eller e você no meu ouvido, se eu ficar bêbada a culpa é sua.
Victor sentado num canto pensando na namorada, Rennan observando o guitarrista, Rodrigo tentando ficar com Larissa, Ariadne procurando algo na bolsa, Rodolfo bêbado falando do rock in rio, eu vou eu vou.
Olhei pra Larisa e pro cara do lado dela, comentei sobre as letras do alfabeto, pela lei são vinte e seis, portanto não se limite, qual palavra a gente pode formar com três consoantes. Larissa entendeu. O cara não.
Eu queria que ela ficasse com Rodrigo.
Eu usava a cerveja como desculpa pra falar o que eu queria.
No fim da festa você comentou com um amigo em comum, acho que ele tava dando em cima de mim. Eu não estava. Não é que você não faça meu tipo, é que não sei mais quem é meu tipo.
Você é delicada e inteligente, percebi pelos óculos, mas eu não estava dando em cima; era justamente o que você queria.
E eu gosto do abrupto.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Cinco mulheres de Martha
Moro na prisão de Santa Martha Acatitla. Aqui descobri meu corpo. Aqui encontrei meu verdadeiro lar.
Aqui conheci Isela.
Isela é a de cabelo curto, no canto. Bonita né? Minha namorada. Você precisava ver como ela chegou aqui; fodida pelo álcool, a coca, os homens. O corpo todo marcado.
Nascida e criada na rua, ela sempre diz: não era eu a violenta, e sim a vida.
A gente assumiu que era lésbica aqui. A Ethel, aquela do pulôver azul, também. Lá fora tem marido e três filhos. Mas ela só se sentiu livre para o amor em Santa Martha.
Pra fugir da solidão tem detenta que aceita um beijo, uma carícia, uma palavra gentil. Ninguém quer dormir sozinha, mesmo não sendo lésbica.
Tá vendo aquela de calça marrom e blusa com paetês? Aquela é a Sandra. Chefe do tráfico. Usava prada gabbana vuitton, desejada por homens poderosos, frequentava as festas da alta.
Hoje só quem sabe dela é o abandono.
A gente aqui luta contra o esquecimento. A maioria não tem mais família. E também não existe muito futuro pra quem passou anos, décadas, em Santa Martha.
Aqui todas as mulheres são inocentes.
Contudo, a Margarita é mais.
Apunhalaram um cara perto da barraca de comida dela. A Margarita, que tava sempre no seu posto, sempre trabalhando, passou de testemunha a suspeita. Nunca aprendera a ler e assinou cegamente todos os papeis que colocaram diante dela.
A Margarita envelhecerá aqui dentro.
Até o Pedro sabe que isso tá errado. Quando ele nasceu eu já estava presa. Próximo mês vão levá-lo embora, é que ele vai completar cinco anos e onze meses.
Eu tenho muitos planos pra ele.
Porém, o que eu mais espero é que nesses cinco anos convivendo comigo, com a Isela, a Ethel, a Sandra, a Margarita, nesses cinco anos convivendo com as outras duas mil presas,
eu espero que meu filho tenha aprendido a ter respeito por nós.
Espero que ele tenha aprendido a tratar as mulheres com o carinho que nós merecemos.
Espero que ele nunca seja o culpado por mandar mais uma detenta para Santa Martha Acatitla.
*Texto baseado no artigo Quando a prisão liberta escrito pela professora Cathy Fourez em Le Monde Diplomatique Brasil, Janeiro 2011.
Aqui conheci Isela.
Isela é a de cabelo curto, no canto. Bonita né? Minha namorada. Você precisava ver como ela chegou aqui; fodida pelo álcool, a coca, os homens. O corpo todo marcado.
Nascida e criada na rua, ela sempre diz: não era eu a violenta, e sim a vida.
A gente assumiu que era lésbica aqui. A Ethel, aquela do pulôver azul, também. Lá fora tem marido e três filhos. Mas ela só se sentiu livre para o amor em Santa Martha.
Pra fugir da solidão tem detenta que aceita um beijo, uma carícia, uma palavra gentil. Ninguém quer dormir sozinha, mesmo não sendo lésbica.
Tá vendo aquela de calça marrom e blusa com paetês? Aquela é a Sandra. Chefe do tráfico. Usava prada gabbana vuitton, desejada por homens poderosos, frequentava as festas da alta.
Hoje só quem sabe dela é o abandono.
A gente aqui luta contra o esquecimento. A maioria não tem mais família. E também não existe muito futuro pra quem passou anos, décadas, em Santa Martha.
Aqui todas as mulheres são inocentes.
Contudo, a Margarita é mais.
Apunhalaram um cara perto da barraca de comida dela. A Margarita, que tava sempre no seu posto, sempre trabalhando, passou de testemunha a suspeita. Nunca aprendera a ler e assinou cegamente todos os papeis que colocaram diante dela.
A Margarita envelhecerá aqui dentro.
Até o Pedro sabe que isso tá errado. Quando ele nasceu eu já estava presa. Próximo mês vão levá-lo embora, é que ele vai completar cinco anos e onze meses.
Eu tenho muitos planos pra ele.
Porém, o que eu mais espero é que nesses cinco anos convivendo comigo, com a Isela, a Ethel, a Sandra, a Margarita, nesses cinco anos convivendo com as outras duas mil presas,
eu espero que meu filho tenha aprendido a ter respeito por nós.
Espero que ele tenha aprendido a tratar as mulheres com o carinho que nós merecemos.
Espero que ele nunca seja o culpado por mandar mais uma detenta para Santa Martha Acatitla.
*Texto baseado no artigo Quando a prisão liberta escrito pela professora Cathy Fourez em Le Monde Diplomatique Brasil, Janeiro 2011.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Meio Burra
Adoro esse seu ar perdido, ela disse.
Eu disse, você parece a Eva Green em Sonhadores, só que menos culta.
Ela reclamou do vinho, reclamar era o modo dela demonstrar que não estava ofendida. Nada ofendia aquela mulher, você podia chamá-la de puta, gorda, gozar na cara dela, deixá-la engolir porra sem querer, dizer que os Stones colocavam os Beatles no chinelo, ela não se ofendia.
Cheguei a pensar que fosse passividade, mas como sempre, eu estava entendendo as mulheres depressa demais. Alguma coisa nela nada tinha de passividade. Eu iria descobrir na pele, literal e biblicamente falando. Faz parte do improviso.
Não sei por que comecei a sair com Isabel, a gente se dava tão bem eu e a Eva Green meio burra.
Acho que começou quando ela disse, ai que tédio. Eu tava ali de bobeira lendo um livro qualquer, perguntei, tu gosta de filme nacional, ela disse, só tem violência pobreza e sexo. Clichê. Fazer o que se eu gosto de desclichar a vida, as pessoas, eu mesmo, enfim. Também gosto de violência pobreza e sexo, quando os dois primeiros não tem nenhuma relação comigo obviamente.
Eu disse, tem um filme nacional no moviecom, bora. Ela fez docinho, acho que toda mãe ensina a filha a fazer docinho. Elas sempre querem, sempre. A gente acabou assistindo As Viagens de Gulliver com o Jack Black. Já assistiu? Bem, como diz o poeta inglês nas suas gentis palavras; DON'T. Eu sei que é uma só, mas eu gosto de plural, faz parte do exagero.
Umas linhas atrás falei que estava lendo, eu estou sempre lendo. Devo ter algum problema. O pessoal daqui pensa que sou meio louco. O bom de ser meio louco é que a gente pode fazer o que quiser, mas alguém disse isso antes de mim.
Eu disse, você parece a Eva Green em Sonhadores, só que menos culta.
Ela reclamou do vinho, reclamar era o modo dela demonstrar que não estava ofendida. Nada ofendia aquela mulher, você podia chamá-la de puta, gorda, gozar na cara dela, deixá-la engolir porra sem querer, dizer que os Stones colocavam os Beatles no chinelo, ela não se ofendia.
Cheguei a pensar que fosse passividade, mas como sempre, eu estava entendendo as mulheres depressa demais. Alguma coisa nela nada tinha de passividade. Eu iria descobrir na pele, literal e biblicamente falando. Faz parte do improviso.
Não sei por que comecei a sair com Isabel, a gente se dava tão bem eu e a Eva Green meio burra.
Acho que começou quando ela disse, ai que tédio. Eu tava ali de bobeira lendo um livro qualquer, perguntei, tu gosta de filme nacional, ela disse, só tem violência pobreza e sexo. Clichê. Fazer o que se eu gosto de desclichar a vida, as pessoas, eu mesmo, enfim. Também gosto de violência pobreza e sexo, quando os dois primeiros não tem nenhuma relação comigo obviamente.
Eu disse, tem um filme nacional no moviecom, bora. Ela fez docinho, acho que toda mãe ensina a filha a fazer docinho. Elas sempre querem, sempre. A gente acabou assistindo As Viagens de Gulliver com o Jack Black. Já assistiu? Bem, como diz o poeta inglês nas suas gentis palavras; DON'T. Eu sei que é uma só, mas eu gosto de plural, faz parte do exagero.
Umas linhas atrás falei que estava lendo, eu estou sempre lendo. Devo ter algum problema. O pessoal daqui pensa que sou meio louco. O bom de ser meio louco é que a gente pode fazer o que quiser, mas alguém disse isso antes de mim.
Passei as férias lendo, por exemplo. Enquanto meu irmão foi pra um convento, meus amigos pra praia, meus pais pra o interior; eu estava sozinho em casa, almoçando café, jantando cigarro e lendo feito esses caras que inventam de trabalhar na tradução dos dez mil volumes da enciclopédia do Yongle Dadian.
É, a gente aprende muita coisa lendo. Pesquisando no google também.
Alguns jogam bola, meu irmão surfa, Ana dança, a velha que mora na casa da frente xinga todo mundo da família dela.
Eu leio.
Cada um tem sua forma de redenção.
Comecei a frequentar as mesmas camas com duas mulheres diferentes. Não ao mesmo tempo, apesar de gostar da idéia, como todo cara que passou aquela fase do só você pra sempre amor da minha vida. Se é que todos vivem essa fase. Eu vivi essa fase.
Falo pra caralho, né? E você querendo saber da história. Então, tudo corria bem, inclusive o dinheiro pro motel que verbizava em todas as línguas possíveis. Eu nunca peço pra mulher pagar motel, acho indelicado. Faz parte do orgulho.
Contudo, como você já deve ter imaginado, caso não seja meio burro como a minha deliciosa Eva Green, isso não podia durar pra sempre. Aliás, anote no seu caderninho aí; não há nada de eterno ao sul do equador.
Estávamos na cama, eu e Eva, quando quis testar sua paciência. Sem cerimônias eu disse que estava saindo com a Isabel, sabe, Isabel, da faculdade.
Cama não é lugar pra gente falar de amor, dá pra conversar sobre o Big Brother, sobre o último filme do Lars Von Trier, sobre o amigo virgem de 25 anos. Mas amor não. A cama é o lugar onde estamos mais vulneráveis. Falar de amor na vulnerabilidade da nossa nudez é suicídio.
Eva não mostrou qualquer reação, fodemos, nos abraçamos, adormecemos.
Acordei aqui no hospital, o reimplante foi um sucesso. Na hora de fugir, Eva esquecera a chave dentro do quarto, eles tiveram que entrar pra procurar.
Não te disse que ela era meio burra.
Linda
Ecologicamente correto de cu é rola, dissera Paulo, uma geração inteira de enrustidos isso sim.
Não força, replicara Antonio, os garotos só querem um mundo melhor, toda geração sonha com isso, a gente que fudeu com o mundo deles.
Linda observava as ondulações do líquido ao mover seu copo. Observava Paulo, o marido andava bebendo demais. E quando, sexta à noite, convidava o Antonio e a nova ninfeta dele, no mínimo quinhetinhos de Uísque. Linda preocupava-se com o dinheiro do Paulo.
Eles não eram um casal, tava mais pra um ciclo vicioso.
Paulo Antunes, 53 anos, péssimo escritor. Não pela sua incapacidade de utilizar técnicas requintadas ou coisas do tipo, isso ele jamais aprenderia mesmo. O cara simplesmente não sabia escrever. Era uma chuva de vírgulas pontos e reticências nos lugares mais inadequados.
Linda revisava os textos e corrigia tudo, xingando-o de burro entre dentes. Burro. Viver a revisar os textos de um corno sem talento, era essa sua forma de arte. Seu destino. O livro de maior sucesso dele tinha sido reescrito quase todo por ela. Só não modificara os títulos dos capítulos.
Paulo: desperdiçar a manhã inteira pensando onde colocar uma vírgula é coisa de viado tipo Oscar Wilde, eu boto vírgula onde tem buraco e quem achar ruim que vá ler Augusto Cury.
Os livros até que vendiam razoavelmente, apesar dele. Ultimamente é que dera uma caída na procura. A editora falava inclusive em incinerar algumas centenas de obras. Paulo não se importava, tinha alma de artista e sentia-se mesmo era incompreendido. Consenso entre os amigos, caso Linda fosse embora, ele sobreviveria.
A literatura dele não.
Eu aviso, eu sempre aviso, elas que não acreditam, repetia Antonio ao ser questionado se já tinha dito a sua nova ninfeta que ele era um pé-rapado.
O Antonio era um pé-rapado, professor de filosofia imagine. Mas tem mulher que gosta de cara assim, principalmente as mais novinhas.
Linda mexia o gelo com o indicador. Sabia que iam ter outra discussão quando o casal fosse embora. Ela diria que iria deixá-lo. Ele jogaria um copo na parede, só pra pegar outro mais cheio.
Ela sempre ficava.
Não força, replicara Antonio, os garotos só querem um mundo melhor, toda geração sonha com isso, a gente que fudeu com o mundo deles.
Linda observava as ondulações do líquido ao mover seu copo. Observava Paulo, o marido andava bebendo demais. E quando, sexta à noite, convidava o Antonio e a nova ninfeta dele, no mínimo quinhetinhos de Uísque. Linda preocupava-se com o dinheiro do Paulo.
Eles não eram um casal, tava mais pra um ciclo vicioso.
Paulo Antunes, 53 anos, péssimo escritor. Não pela sua incapacidade de utilizar técnicas requintadas ou coisas do tipo, isso ele jamais aprenderia mesmo. O cara simplesmente não sabia escrever. Era uma chuva de vírgulas pontos e reticências nos lugares mais inadequados.
Linda revisava os textos e corrigia tudo, xingando-o de burro entre dentes. Burro. Viver a revisar os textos de um corno sem talento, era essa sua forma de arte. Seu destino. O livro de maior sucesso dele tinha sido reescrito quase todo por ela. Só não modificara os títulos dos capítulos.
Paulo: desperdiçar a manhã inteira pensando onde colocar uma vírgula é coisa de viado tipo Oscar Wilde, eu boto vírgula onde tem buraco e quem achar ruim que vá ler Augusto Cury.
Os livros até que vendiam razoavelmente, apesar dele. Ultimamente é que dera uma caída na procura. A editora falava inclusive em incinerar algumas centenas de obras. Paulo não se importava, tinha alma de artista e sentia-se mesmo era incompreendido. Consenso entre os amigos, caso Linda fosse embora, ele sobreviveria.
A literatura dele não.
Eu aviso, eu sempre aviso, elas que não acreditam, repetia Antonio ao ser questionado se já tinha dito a sua nova ninfeta que ele era um pé-rapado.
O Antonio era um pé-rapado, professor de filosofia imagine. Mas tem mulher que gosta de cara assim, principalmente as mais novinhas.
Linda mexia o gelo com o indicador. Sabia que iam ter outra discussão quando o casal fosse embora. Ela diria que iria deixá-lo. Ele jogaria um copo na parede, só pra pegar outro mais cheio.
Ela sempre ficava.
Tem mulher que gosta de cara assim, meio derrotado. Principalmente as que tem consciência do seu próprio valor.
Mulher não gosta de competição.
Paulo: eu não tenho filho pra não ter o desgosto dele virar um merda desses.
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